Efraim Rodrigues
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Xixi no banho é um tiro no pé
domingo, maio 24 2009 - 09:51

Nesta semana a pergunta de uma repórter pegou-me totalmente desprevenido.

– Qual a sua opinião sobre a campanha do ONG SOS Mata Atlântica das pessoas fazerem xixi no banho para economizar água do vaso sanitário ?

A coluna de hoje é sobre o que passou pela minha cabeça nos poucos segundos disponíveis.

De cara me veio o óbvio: crise da água e cidadãos alienados. Cada descarga gasta doze litros de água. O Brasil tem quase 200 milhões de habitantes. Não havia tempo para fazer a conta, mas deve ser muita água. Eu próprio pratico isto, mas quantas pessoas querem fazer xixi justo durante o banho ? Lembrei de um ambientalista que me apontou o jardim quando perguntei onde ficava o banheiro.

– Só se o assunto não for sério ! Disse-me, mostrando os limites de seu comprometimento ambiental.

O desperdício de água nas residências afronta a ética ambiental, mas não é onde mora o perigo. A agricultura consome 32% da água do mundo e as cidades 6%. Você economiza muito mais água comprando alimentos de época (eles não precisam de irrigação) do que fechando a torneira enquanto escova o dente. É ainda melhor se fizer ambos.

Nosso problema com a água não é de falta. É de excesso. A América Latina tem 28% da água doce do planeta e somente 6% da população. Esta bonança nos fez usar a solução primitiva de usar água limpa para diluir cocô. Desculpe, águas servidas. Dados divulgados nesta semana pelo instituto Trata Brasil mostram que lançamos 5,4 bilhões de litros de esgoto por dia em nossos rios. 85% do xixi que o país faz, seja no banho ou no vaso, são lançados in natura.

A campanha da ONG enfoca uma questão válida mas menor. Trataria com respeito um aluno que dissesse isso em uma sala de aula, mas mesmo ali tentaria conduzir seu entusiasmo para causas mais relevantes.

O SOS Mata Atlântica é uma ONG de abrangência e respeito nacionais que está usando seu prestígio para falar de algo pequeno, deixando o importante de lado. Será que além de já termos uma mídia que evita falar mal de seu principal anunciante (o governo), também agora as ONGs não colocarão o dedo na ferida para evitar magoar suas fontes governamentais de recursos ?

A única força das ONGs é serem um poder paralelo, eficiente e próximo ao cidadão. Se não cumprirem este papel, estão fazendo xixi no próprio pé.

Código às claras
sexta-feira, maio 15 2009 - 01:30

Estamos à beira de perder conquistas históricas ambientais . Sempre se fala que nosso país tem boas leis ambientais, falta cumpri-las. Algumas pessoas trabalham para que em breve nos faltem também as leis.

Em Santa Catarina, a Assembleia Legislativa aprovou legislação reduzindo a área de preservação permanente no estado. Se cada estado vai ter esta autonomia, então também cada municipio, bairro e pessoa poderá fazer uma lei para si. Eu, por exemplo, acabo de aprovar uma legislação determinando que a coluna do domingo agora pode ser entregue na segunda. Igualmente sem sentido é um estado fazer uma lei que contraria a legislação federal e que ainda por cima agravará as enchentes como as do final de 2008.

O Ministro Stephanes argumenta que a legislação atual inviabiliza a agricultura. É mentira.

Ele diz estar embasado em dados da Embrapa. É verdade. O pesquisador Evaristo de Miranda colocou algumas estimativas em seu site mostrando que de acordo com a legislação atual, -7% da área da Amazônia pode ser cultivada. O tracinho não foi engano. A Embrapa criou o conceito de área negativa, mas felizmente parece que se arrependeu. Hoje (sexta feira) estes dados não estão mais disponíveis no site, só no cache do google (e agora também em meu disco rígido).

Ainda que sejamos compreensivos acerca da boa vontade da Embrapa com seu chefe, o estudo se refere ao óbvio; a Amazônia não tem vocação para a agricultura temperada, inventada no clima seco e frio da Mesopotâmia e adaptada para o Meio Oeste Norte Americano. A Amazônia precisa de outros modos de produção. O que a legislação atual poderia fazer (se fosse levada a sério) seria ganhar tempo para que estes modos de produção, disponíveis na própria Embrapa, sejam adotados pelas populações locais.

Os que pressionam para mudar o código florestal esquecem que a vocação da maior parte de nossas terras é para ter árvores e muitas espécies (o que não implica obrigatoriamente em unidades de conservação). O estado do Paraná tem 1200 empresas que usam madeira e pagam impostos da ordem de R$600.000.000 e onde já falta matéria prima. Há muitos casos em que a reserva legal pode ser usada para produção de madeira.

A agricultura, em especial esta versão temperada que usamos por aqui, precisa não só de terra mas de água. Se as beiras úmidas dos rios não tiverem nem os 30 metros de árvores, mas somente 5 como Santa Catarina propõe, então eles ganharão 25 metros de terra e junto com elas um estado de deserto.

A última febre das gripes
sábado, maio 02 2009 - 02:35

Uma gripe é uma boa oportunidade para você aprender ecologia básica. O vírus é o predador e você a presa. Você é o hospedeiro e ele o parasita. Você está prostrado e não tem como escapar de seu agressor, o professor de ecologia.

Antes, o básico. Não perca seu tempo com desinfetantes, bactericidas e antibióticos. Eles são efetivos contra bactérias e fungos, mas vírus são totalmente diferentes. Já a máscara e higiene adiantam porque os vírus podem usar pequenas partículas para locomoverem-se. Também, em algum canto do seu cérebro permanecem as lembranças das aulas de biologia, dos cisticercos que podem estar na carne suína e ao serem ingeridos alojam-se no cérebro (como cisticercos, não como lembranças). Nada disto tem a mínima relação com febre suína. A única coisa que esta gripe tem de suína é que os pesquisadores acham que ela veio dos porcos. Se você pegar isto, vai ser do mesmo jeito que se pega gripe; por meio de alguém infectado, não comendo carne de porco.

A primeira parte da história é imaginar um organismo qualquer se multiplicando. Ele segue uma ordem geométrica até extinguir seu alimento (nós, no caso). Não se desespere porque isto nunca chega a acontecer completamente na natureza. A seleção natural que o parasita promove entre os hospedeiros termina por salvar a população na maioria dos casos.

Se a saúde dos tataranetos de alguns humanos resistentes de hoje também não animou, lembro que nós é que somos os descendentes daqueles que vêm sofrendo com variáveis próximas desta, a gripe espanhola, a SARS e episódios eventuais de influenza. Você não é um pedaço de carne indefeso esperando para ser destruído por um parasita. Você é o vencedor de um processo evolutivo no qual inúmeros microorganismos tentaram lhe atacar. Se você está lendo isto, é porque nenhum deles foi inteiramente vitorioso. E isto inclui seus antepassados dos últimos seis bilhões de anos. Curiosamente, o mais antigo deles é exatamente um vírus, este ser vivo que abriu mão de tudo o mais que os outros têm, para conter somente as instruções para sua reprodução.

Falando em vitória, vírus não pensa e muito menos quer destruir você. Tire o vírus da mesma caixa dos filmes Tubarão, Anaconda e Tarântula. Eles estão se reproduzindo meio sem querer, aliás da mesma maneira que nós. O caminho destes parasitas é geralmente reduzir sua periculosidade, porque assim sua presa vive mais e com isso ele também se reproduz mais.

Se nada disto o acalmou, há também antivirais que conseguem evitar a reprodução do vírus no corpo humano, mas isto tem que ser feito em um hospital e por médicos competentes. Por fim, fique longe dos filmes citados acima e principalmente do filme 12 macacos, sobre um maníaco que espalha um vírus letal no planeta.

Pisa não é Pizza
sexta-feira, abril 24 2009 - 11:35

Eu sempre repito que com o acesso que temos à informação, ela hoje não é tão crítica quanto conseguir levar as pessoas a agir de acordo com o que já sabem.

Descobri que venho falando bobagem.

Um estudo internacional de avaliação do aprendizado de adolescentes realizado a cada 3 anos (PISA) mostrou que apesar de 90% dos adolescentes serem familiares com temas ambientais, que eles não os compreendem realmente, muitos sendo incapazes por exemplo, de identificar uma única fonte de emissão de chuva ácida.

Todo mundo está muito indignado com o efeito estufa, mas pouca gente sabe o que ele tem a ver com o aumento do nível do mar. E menos ainda sabem por que o degelo do pólo sul é mais importante que o do Pólo Norte, e o da Groenlândia então, mais importante que todos.

Para resumir com uma expressão que meu pai gosta muito; Os alunos ouviram o galo cantar, mas não sabem onde.

O estudo aponta, como sempre, que nosso país está na lanterna da lanterna. Atrás de nós vêm Azerbaijão, Quirguistão e Qatar. Pequena parte de nosso país vive de forma barulhenta, avessa a pensar e que copia só o pior do resto do mundo. A maior parte enfrenta problemas tão grandes no curto prazo que não pode pensar em investimentos de longo prazo como educação e ambiente; além de vez ou outra imitarem os barulhentos.

Afora as dificuldades históricas, parece que não estamos fazendo nossa lição de casa; somos a lanterna entre os países membros da América Latina membros da OECD

Se quiséssemos explicar (Ah, se houvesse uma prova sobre explicações para fracassos e Pizzas...) poderíamos dizer que a prova incluiu uma pergunta sobre o Grand Canyon, que beneficiaria os alunos norte-americanos. Igualmente, a chuva ácida é um problema maior nos países mais desenvolvidos, onde fala-se mais sobre este assunto. Mas ainda assim, isto não explica nossa inferioridade dentro da América Latina.

A lista de países acima da média inclui uma mistura da “ética do trabalho” protestante e dedicação asiática e sugere o caminho para nós. Trabalho e trabalho. Aluno: estude mais; Professor: gaste mais tempo preparando sua aula; Secretário de Educação: melhore os salários para poder escolher os melhores. Político: escolha melhor seus Secretários da educação. Ao resto da população peço confiança e paciência. Este não é o melhor caminho, é o único.

A solução ambiental afinal não é agirmos de acordo com o que já sabemos. É ainda passarmos a saber.

Eu também sempre repito que as mulheres vão dominar o mundo em breve porque são mais dedicadas à sua educação do que os homens. Mais uma bobagem.

Apesar da minha percepção paroquial entre meus alunos e alunas, o Brasil foi um dos países onde a superioridade masculina na prova foi maior.

Assumindo que homens e mulheres são igualmente capazes, esta diferença só se explicaria pelo maior investimento na educação de meninos que de meninas. De novo um caminho ruim. A educação de mulheres gera mais benefícios a longo prazo em termos de educação dos seus filhos e redução da taxa de natalidade.

Mas afinal o que o efeito estufa tem a ver com o aumento do nível do mar e por que o degelo do pólo sul é mais importante que o do Pólo Norte, e o da Groenlândia então, mais importante que todos ?

A água quente ocupa mais volume que a água fria. Só isto, já garante alguma subida do nível do mar com o aumento da temperatura do planeta. Além disso, o gelo bóia na água porque é menos denso que ela. No entanto, ao derreter-se, o empuxo dele ou do volume de água resultante do seu derretimento é o mesmo. Um copo de água e gelo cheio até a borda não irá transbordar quando o gelo derreter-se. Boa parte do gelo do Pólo Sul está sob rocha e ao derreter-se irá para o mar, aumentando seu volume, ao passo que o gelo do Pólo Norte está boiando, portanto não somará volume ao mar.

O gelo da Groenlândia, ao derreter-se irá, além de adicionar uma grande massa de água por estar fora da água, desequilibrar a corrente do Golfo que leva calor para a Europa. A água do Oceano Atlântico flui por cima do Equador para a Europa (água quente é menos densa que a fria, certo ?) e por baixo no sentido inverso. Um grande volume de água doce sendo adicionado na ponta norte da corrente vai desligá-la, como já ocorreu antes, colocando a Europa numa fria. Se você faltou no dia em que a professora explicou os três estados da água não tem como entender o planeta onde mora.
A crise é do bem ou do mal ?
domingo, abril 19 2009 - 06:49

A crise é onipotente e onipresente como Deus, com a vantagem de podermos falar dela sem deixar ninguém bravo.

No princípio a crise era o céu. Quando quebraram os primeiros bancos, muitos economistas disseram que a crise seria boa para o ambiente porque ao retrair o consumo de commodities como petróleo, soja e minérios, daria tempo para se criarem e melhorarem as tecnologias verdes. Disseram também que a crise geraria um senso geral de redução, reuso e reciclagem, o chamado neo-frugalismo, resultado do aperto geral. É bem verdade que houve uma redução de 240.000 barris/dia na demanda de global de óleo e o consumo de 1 bilhão de toneladas de minério de ferro caiu a ponto do preço cair 40%.

Outro argumento muito divulgado no início da crise, era que as super dimensionadas casas norte americanas iriam diminuir. Como a moradia consome ¼ da energia total em países industrializados, isto teria um impacto positivo no consumo de energia. Mas será que uma pessoa morando em uma casa menor aprendeu que uma casa gigantesca não a deixa mais feliz, ou ela volta para a casa grande tão logo possa ?

Daí veio o inferno e percebemos que ainda que ganhemos algum tempo com a redução de consumo, ele não é suficiente para o aparecimento de novas tecnologias do uso de commodities, cujo desenvolvimento é freqüentemente contado em décadas, como no caso dos carros elétricos, turbinas eólicas e a fermentação da celulose para produção de álcool.

Consumo reduzido de commodities também significa que o preço delas cairá, levando junto as inovações, filhas que são dos altos preços. Na década de 80, por exemplo, os países produtores de petróleo do golfo pérsico se uniram para abaixar o preço do petróleo, por medo das alternativas nascentes, entre elas o Proálcool brasileiro.

A crise também espalha o medo entre pessoas e empresas, o que é fatal para iniciativas ambientais,quase todas de longo prazo.

Os trabalhadores chineses são certamente o grupo mais amedrontado com a crise. Eles estão sendo demitidos aos milhares de seus empregos urbanos e retornando à zona rural. Ainda que o impacto ambiental causado por estas pessoas vá reduzir-se, será difícil vender o céu do neo-frugalismo para pessoas vivendo o inferno do velho frugalismo esfomeado.

Alguma luz no fim do túnel começa a aparecer a partir do sentimento que uma crise como esta exige iniciativas muito criativas e radicais. A GM, por exemplo, anunciou seu novo carro elétrico onde o motor não gira as rodas, mas carrega uma bateria. Igualmente, o governo norte americano destinou 25 bilhões de dólares para energias limpas.

No entanto, a pré falimentar GM também anunciou que está reduzindo os investimentos necessários para a fabricação do carro elétrico, e não há dinheiro do governo norte-americano, nem mesmo na escala de bilhões, que anime a substituição de um combustível que custa abaixo de US$ 2,00 o galão ou o equivalente a R$ 1,16 o litro.

Os investimentos ambientais permanecem no limbo entre o medo do investimento e sua inevitabilidade a longo prazo

Recursos Finitos
sexta-feira, abril 03 2009 - 09:12

Acredite ou não, houve um tempo em que a terra era de graça. Sobrava espaço em um mundo com somente 300 milhões de pessoas. Plantava-se na capacidade do braço, não do terreno. O final desta história é conhecida. Hoje somos quase 7 bilhões e cada centímetro tem um dono, às vezes mais.

A mesma coisa aconteceu com a madeira, da qual já dependemos para tudo, construir casa, esquentar casa, fazer comida, tocar máquinas e fundir metais. Com o tempo a madeira foi acabando e vieram pegar aqui na América. O pau-brasil português é só parte da história. A madeira era o principal objetivo dos britânicos nos EUA.

Nossa geração está vivendo a mudança da água gratuita para água paga. A qualidade vital da água para todas espécies já está disseminada em nossa cultura, até mesmo em algumas religiões. Também sabemos da dificuldade de produzir água de qualidade em um ambiente mais e mais degradado. Mesmo assim não pagamos pela maior parte da água que consumimos.

- Como assim, se uma garrafinha de água custa dois reais ?

Ninguém paga pelo uso da água. Nem a Nestlé, que possui autorização para extração da maioria das minas, nem a SANEPAR ou a SABESP, que vendem a distribuição e tratamento, não a água em si e nem nenhuma indústria que utilize água em seus processos. Há poucas exceções, implementadas pelos recém criados comitês de bacia hidrográfica. Se você abrir um poço artesiano em São José do Rio Preto, por exemplo, irá colocar um hidrômetro e pagar pelo que consumir.

Neste dia Internacional da Água, experts do mundo inteiro se reúnem em Istambul para gastar nosso dinheiro, além da pouca água que tem lá, e então voltar para seus países e bater no peito que são muito ambientalistas, estiveram em Istambul-2009 !

Cada um de nós pode fazer muito mais neste dia da água do que turismo de eventos. Um tanque de 180 litros na calha de água da chuva pode acumular água suficiente para lavar carro, regar o jardim e lavar o quintal (cuidado com a dengue, no entanto !). Se com esta medida seu consumo de água cair abaixo dos 10m3, use então a mangueira do jardim para jogar na calçada o que faltar.

As “cartilhas” da SANEPAR dizem que não devemos usar água para varrer a calçada e que devemos escovar os dentes com a torneira fechada, mas as contas trazem uma mensagem oposta: Está escrito lá: Gastem o consumo mínimo de 10m3 ! Se você gastar menos que isto, não lhe cobraremos menos. Como a cartilha é muito menos poderosa que a conta, sugiro que obedeçam a última sob pena de ter seu nome protestado.

Muro ou Murro ?
sexta-feira, abril 03 2009 - 09:03

As grandes cidades de nosso continente foram construídas a partir da apropriação das terras dos índios. O Pátio do Colégio Paulistano está na antiga tribo do cacique Tibiriçá e hoje ele não tem nem um nome de rua em sua homenagem. A Catedral da Cidade do México foi construída em cima do antigo templo de Tenochtitlan. Tudo isto ocorreu com grande dose de violência e por isso estas cidades tinham que ser cercadas por muros altos feitos de troncos afiados. Rio de Janeiro e Salvador foram cidades ilhadas por décadas durante sua criação.

Nesta semana o governo do Rio de Janeiro decidiu lembrar os velhos tempos e reconstruir a antiga paliçada carioca (casa de branco em tupi), com um gasto de 40 milhões para 11 km de muros com 3 metros de altura de concreto armado.

O muro carioca é mais um exemplo do conflito ambiental entre o público e o privado. Todos queremos a Mata Atlântica em sua plenitude, mas aquele que vai construir o próximo barraco quer mesmo sua parte da floresta na forma de moradia.

O estado então entra nesta disputa e diz:

–Vocês não podem construir aqui, este é um espaço público !

A construção deste muro poderia ser positiva se viesse junto com medidas para estimular idéias coletivas também em outras classes sociais. Pedágio urbano para tirar a classe média de seus carros. Coleta seletiva de lixo obrigatória. Britadeira para propriedades que avançam em calçadas.

Ao impor o coletivo somente para uns, o Estado do Rio de Janeiro termina por passar a mensagem oposta. Abrir mão do individual em prol do coletivo é algo que ELES e SEMPRE ELES devem fazer. Os indígenas devem abrir mão da terra em que viveram toda a vida para termos nossas sesmarias. Porém, como para tudo o mais, a sesmaria de hoje é visual. Queremos agora enxergar a extensão de nosso poder. O morador da orla da praia está pensando nas espécies endêmicas da Mata Atlântica, erosão ou no ciclo da água ? Ele deixa o carro em casa para reduzir os danos por poluição na floresta ? Separa seu lixo, sobe o morro para plantar árvores ?

O muro de Berlim e de Gaza caíram. Os Estados Unidos elegeram um presidente para tentar derrubar os vários muros daquele país (de concreto ou não) incluindo o do México.

O Rio de Janeiro está dando um passo na contramão da história e tenta usar uma desculpa ambiental para justificar seu atraso.

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